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Na natureza, longe do cativeiro e das manchetes, os pandas se comportam de uma forma muito diferente do estereótipo que os transformou em um dos animais mais queridos do mundo.
Em 1966, o zoólogo britânico Desmond Morris listou 20 razões para a paixão das pessoas por pandas. Quase metade delas estava relacionada à aparência do animal.
Mas a aparência pode enganar
Chegar muito perto de um panda selvagem pode ser um grande erro.
Na verdade, mesmo em cativeiro, onde os pandas estão acostumados ao conforto humano, eles podem ser perigosos.
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Em 2006, um homem de 28 anos entrou no recinto dos pandas no Zoológico de Pequim, na China, e tentou abraçar um dos animais.
Ele foi atacado e sofreu ferimentos graves nas pernas.
Lesões como essas são possíveis por causa das mandíbulas extremamente fortes e da robusta crista sagital do animal.
Essa parte do crânio serve de ponto de fixação para um enorme músculo da mandíbula, responsável por uma das mordidas mais fortes entre os carnívoros.
O panda precisa dessa mordida intensa para romper a dura bainha de um talo de bambu.
Essa mordida é essencial para um animal que passa mais da metade do dia coletando, preparando e comendo bambu.
Com estas adaptações, o panda fez uma mudança evolutiva notável.
Descendente de caçadores, ele encontrou uma maneira de viver de bambu, um alimento disponível o ano todo.
E há mais uma vantagem: ao contrário das presas de outros caçadores, o bambu não foge.
Quanto à reprodução, a imagem dos pandas em cativeiro também é bem diferente da realidade da espécie na natureza.
Os pandas têm um ciclo reprodutivo muito particular: as fêmeas ficam férteis apenas uma vez por ano, durante poucos dias.
Por causa disso, é fácil entender por que os pandas têm dificuldade para se reproduzir em cativeiro.
1. Pandas são solitários
Os pandas são solitários, exceto durante a fase reprodutiva.
Eles costumam ocupar áreas próprias, que marcam com o cheiro para avisar outros pandas de sua presença.
2. Os pandas comem quase o tempo todo
Os pandas são os únicos ursos de dieta quase totalmente vegetariana, feita basicamente de bambu.
Como o bambu fornece pouca energia, os pandas precisam se alimentar com muita frequência.
3. Existem dois tipos de panda
A subespécie mais conhecida é a do panda-gigante de Sichuan, que reúne a maioria dos pandas do mundo.
Eles vivem em florestas de montanha, principalmente na região de Sichuan, na China.
O segundo tipo de panda é raro e ocorre apenas nas montanhas Qinling, na província de Shaanxi (China).
Esta subespécie é ligeiramente menor que o panda gigante típico e seu pelo é marrom e branco, em vez de preto e branco.
Nenhuma das duas se confunde com o panda-vermelho, também chamado de “pequeno panda”, que não é um urso, pertence a outra família e também está ameaçado de extinção.
4. Os filhotes de panda são minúsculos
Devido ao curto período de gestação, os filhotes de panda nascem pesando pouco mais de 100 gramas.
Na verdade, estão entre os menores filhotes de mamíferos placentários em relação ao tamanho da mãe.
Além disso, nascem cegos e quase indefesos, e precisam de cuidados intensivos das mães nos primeiros meses de vida.
5. A espécie ainda precisa de proteção
Por mais divertido que seja aprender esses fatos, eles não mudam a realidade: historicamente, os pandas-gigantes estiveram seriamente ameaçados.
Os esforços para proteger os pandas selvagens e as florestas de bambu na China ajudaram a mudar a classificação do animal de "em perigo" para "vulnerável" em 2016.
Zoológicos e outras organizações em todo o mundo coordenam programas de reprodução de pandas em cativeiro para garantir a continuidade da espécie, mas essa solução não substitui a proteção dos animais na natureza.
A situação do panda também é resultado de séculos de caça e de perda de habitat.
O comércio de animais selvagens continua a prejudicar não só os animais, mas também o ambiente e a saúde humana.
Um carnívoro que vive de bambu
O panda-gigante pertence à ordem dos carnívoros e tem o sistema digestivo curto, típico dos animais que comem carne. Apesar disso, sua dieta é quase toda de bambu, um alimento pobre em nutrientes e difícil de digerir. Para compensar, ele precisa comer grandes quantidades e passar boa parte do dia se alimentando. Também economiza energia: move-se devagar, descansa com frequência e não costuma hibernar. Em vez disso, durante o inverno desce para partes mais baixas das montanhas.
Outra adaptação curiosa é o chamado "falso polegar", um osso alongado do punho que funciona quase como um dedo a mais e ajuda o panda a segurar os talos do bambu. Seus dentes e a musculatura da mandíbula também são muito fortes, o que permite mastigar material bastante resistente. O animal eventualmente pode comer outros alimentos, inclusive ovos ou pequenos animais, mas isso é raro na natureza.
Por que preto e branco?
A pelagem chama a atenção e já gerou várias hipóteses. Um estudo publicado em 2017 sugeriu que ela funciona como uma forma de camuflagem. As partes brancas ajudariam o animal a se confundir com a neve, e as pretas, com áreas de sombra na floresta. Marcas escuras no rosto e nas orelhas podem também ajudar na comunicação, indicando identidade ou intimidando rivais. Essas ideias continuam em discussão, pois observar pandas na mata é muito difícil.
Um animal difícil de contar
Os pandas vivem em florestas de montanha, em algumas cadeias de montanhas no centro-sul da China, sobretudo em Sichuan, Shaanxi e Gansu. São animais tímidos e solitários, e muitos dados são obtidos a partir de sinais indiretos, como fezes e marcas de mordida no bambu. Pesquisadores usam análise de DNA e armadilhas fotográficas para melhorar essas estimativas. Por esse motivo, os números sobre a população costumam ser aproximados e dependem do método usado.
Uma boa notícia, com ressalvas
Em 2016, a União Internacional para a Conservação da Natureza mudou a classificação da espécie de "em perigo" para "vulnerável", resultado do aumento da população selvagem e da expansão de áreas protegidas. O governo chinês também criou um grande parque nacional dedicado à espécie, unindo reservas antes isoladas. Isso é importante, pois as estradas e as atividades humanas dividem o habitat, e grupos separados têm mais dificuldade de se reproduzir, o que reduz a diversidade genética.
A situação não está resolvida. As mudanças climáticas podem afetar o crescimento do bambu, base da alimentação do panda. Além disso, proteger essa espécie também protege outras que dividem a floresta, como o panda-vermelho, o takin e o faisão-dourado. É por isso que ele é chamado de espécie guarda-chuva.
Pandas em cativeiro e diplomacia
Há décadas, a China usa os pandas em suas relações internacionais. No início, os animais eram dados como presentes a outros países. Hoje, costumam ser emprestados a zoológicos por longos períodos, mediante acordos que também financiam pesquisa e conservação. Os filhotes nascidos no exterior normalmente voltam para a China depois de um tempo.
A reprodução em cativeiro exigiu muitos estudos, pois a fêmea é fértil apenas por poucos dias ao ano. Centros de pesquisa na China desenvolveram técnicas que ampliaram o número de animais, e alguns deles têm sido preparados para voltar à natureza, com cuidados como treinadores vestidos de panda para evitar que os filhotes se acostumem com pessoas.
Como apreciar sem atrapalhar
Para quem ama esses animais, a melhor forma de ajudar é buscar informações confiáveis e apoiar instituições sérias de conservação. Em uma visita a um centro de pesquisa ou a um zoológico, pesquise antes as condições em que eles vivem e evite locais que oferecem fotos segurando filhotes ou contato direto. Apesar da aparência dócil, os pandas são animais selvagens e muito fortes.